segunda-feira, 9 de maio de 2011
Nada mais a dizer
Se houvesse algo mais a dizer, ele di-lo-ia. Nunca deixara as suas palavras presas. Aliás, era um grande adepto de abrir a porta e mantê-la aberta para que todas as palavras que quisessem sair, o pudessem fazer e visitar esse mundo, fora da mente que as vira nascer. Não. Tinha dito tudo quanto precisara, tudo quanto se lembrara, tudo quanto lhe importara. Caminhava agora, perdido algures por entre umas ruas cujos nomes não lhe inspiravam um convite de permanência na sua mente. De tudo quanto acabara de se passar, apenas um detalhe lhe importava. Somente, a quantidade de espectadores que acabavam de presenciar o seu tão único e sentido discurso sobre algo de que já não se lembrava. Quem seriam, que fariam, que rumo teriam as suas vidas tomado, de forma a permitir-lhes presenciar tamanha demonstração de arrogante sobranceria...E o orgulho invadiu-o. Esse velho amigo, que se mantivera uma das poucas constantes na sua vida, acabara por lhe custar muito mais do que alguma vez ele tivera, mas...nunca lhe conseguira dizer que não. Sentia-se como se Deus, o único ser acima de si próprio, apenas porque a sua existência nunca havia sido provada, decidira conceber um Seu semelhante...Nove meses antes de ele nascer. Assim passara toda a viagem de regresso, até parar em frente à sua esplanada predilecta. "Só um copo.", pensou ele, tentando enganar a sua própria mente. Enfim, na hora de se tomar uma decisão, o álcool teria um maior peso do que qualquer moral que o pudesse guiar. Ele preferia-o, pois, que culpa de uma escolha errada se lhe poderia associar, quando, apenas, seguira ordens? Relembrando tudo o que viveu nesse teatro matutino, deu um trago no seu whiskey velho, talvez tão velho quanto ele, se se perguntasse a um qualquer entendido e, pela primeira vez em muito tempo...Encontrou algo, invulgarmente, semelhante a contentamento.
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